terça-feira, 5 de julho de 2011
Ela mesma bastava.
Era ela o milagre da mãe, o mimo da família. Crescera em meio do amor de sua família deveras deficiente, em foco de câmeras, cercada de pequenas frustrações. Nunca fez questão de amigos, popularidade. À ela, ela mesma bastava. Não entendia a necessidade de atenção que os outros tinham. Nunca foi fã de algo que estivesse na moda: preferia aquilo que ninguém conhecia, sem precisar dividir com ninguém. Odiava discussões, sobre qualquer tema, com qualquer pessoa. Teve alguns bons amigos que em um breve espaço de tempo se provaram nem tão amigos assim. Teve vários bons momentos em que se sentira tão feliz que precisava compartilhar com o mundo. Ai se lembrava que não tinha com quem o fazer, e sentia-se feliz pelo simples fato de se sentir assim, sem depender de ninguém. À uma certa fase, entregou-se aos prazeres mundanos: namorou, saiu, viu mil filmes diferentes, reclamou de todos, participou de programas da TV, teve amigos, alguns. E com cada um, mais tarde, acabou se decepcionando. Descobriu o significado de falsidade, de abuso, de dor. Sentiu-se abandonada inúmeras vezes. Resolveu que, mais uma vez, à ela, ela mesma bastaria. Tantas falas guardadas pela indisposição à se indispor com o mundo, tantos sentimentos omitidos. Não valia a pena insistir em algo que seria sempre da mesma forma. Nestes momentos, ela simplesmente desistia, deixava tudo pra lá, concordava e se calava. Ela ouvira falar algo sobre corações calejados anteriormente. Entendia perfeitamente o sentido disso naquele momento. Não fazia questão de amigos, de família, de ninguém. Não fazia questão da aprovação de ninguém, da opinião de ninguém, da ajuda de ninguém. À ela, ela mesma bastava. Não se preocupava em demonstrar tristeza, cansaço ou insatisfação. Ninguém se importaria, de qualquer forma. Viveu a vida apenas concordando, omitindo, farsando. E a única coisa que a incomodava era não se incomodar. Não se incomodava mais com as atitudes errôneas e egoístas de outrem. Apenas suspirava, sorria e seguia em frente diante delas. Não valia a pena. Viveu uma vida sozinha. À ela, ela mesma bastava.
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